domingo, 13 de janeiro de 2008

Tudo tem o seu avesso


Há coisas na vida que não são para serem entendidas. A que vou falar é uma delas. Tenho mesmo que o dizer, e não sei como o hei-de fazer. A culpa é toda minha. Se há coisas que não se entendem, não sou eu nem ninguém que as vai ter de fazer entender, mesmo que a história prove exactamente o contrário. Ainda assim, serei muito claro. Então, não será por falta de clareza que não vamos entender.

Eu próprio percebo muito pouco do que tenho para dizer. Bem, deixando-me de rodeios, o que quero é fazer o elogio do amor puro, a verdadeira homenagem a esse sentimento destruído pelo mundo e gentes contemporâneas. Dá a ideia que já ninguém se apaixona realmente. Parece que já ninguém aceita amar alguém sem uma razão aparente. Já ninguém se assume para viver o que é impossível de ser vivido. Nos dias de hoje, as pessoas apaixonam-se por uma questão de jeito, não mais do que isso. Dão-se bem, não se chateiam muito.

Por hoje, as pessoas fazem contratos antes do casamento, fazem planos sobre e para tudo, e à mais mísera adversidade entram logo em diálogo, aceso na maioria das vezes e “entre pessoas adultas”. O amor é cada vez mais algo que pode ser combinado por outros factores. Os amantes começaram a proliferar, como se de comércio e sociedades se tratasse. O amor é hoje não mais que uma mera espécie de sentimento influenciada por questões psicológicas, biológicas e sociológicas. Vai do indivíduo escolher o seu amor, porque hoje o amor não acontece por acaso, e talvez por isso não seja amor. Agora escolhe-se de quem se gosta. A beleza é também ela cada vez mais fundamental e essencial, e que me desculpem todos os feios. Sob o ponto de vista sociológico, é cada vez mais importante para o ser humano ter um amor que pareça bem. É cada vez mais uma questão de vaidade que o nosso amor seja este, em detrimento daquele. Ou por Ter uma cor diferente, por ter um cabelo mais engraçado, ou por ter um formato mais esbelto. Tudo conta por hoje para “amar”. Basicamente, podia dizer que as pessoas quase se apaixonam. Não, quase ninguém se apaixona de verdade. Amor verdadeiro é entrega pura e leal, única e autêntica. E nada mais.

Nunca se viu namorados tão covardes como os de hoje. As pessoas são incapazes de correr riscos de felicidade, de ter gestos nobres sem esperanças de recompensa, de esperar e sofrer. Já ninguém aceita a paixão com tudo aquilo que se lhe prende. A pureza, a tristeza, a saudade sem fim, o medo, a instabilidade, e todas as outras coisas. Nada disso é aceite pelas pessoas nos dias de hoje. Nada que tenha a ver com paixão é aceite. Já ninguém aceita viver com a doença, que é como um vírus que nos consome o sangue e o coração, a alma e o ar que respiramos. O amor verdadeiro não é nenhum auxílio para se ser feliz. O amor não é para ser a água que tapa o fogo dos incêndios das nossas vidas. Não é, definitivamente.

Já não vejo romances, loucuras puras, abraços sentidos e todas essas coisas. O amor morreu, já não vive, já não esboça sequer um respiro. Amor que é amor tem de ser perigo por dentro, e não por fora. O amor não é para nos fazer felizes. Não é, e ponto final. O amor tanto faz, é uma mera questão de sorte ou azar. O amor não existe para nos levar para cima das nuvens. O amor existe para nos dar essa vontade, e nada mais do que isso. O resto cabe a quem ama e a quem é amado, a quem quer viver o amor, e a quem não quer. E ainda, na sua maioria, a quem quer viver plágios mal feitos de amor. A quem, basicamente, quer viver a “quase” paixão.

O amor verdadeiro não é sequer um destino. O amor é uma condição, que não se percebe nem nunca se perceberá. O amor é a nossa alma a sonhar. É a busca do que não se compreende, do que não se tem, do que não se apanha. O amor é algo mais bonito que a própria vida que nós vivemos. Antes morrer por amor, que morrer na própria vida.

No amor verdadeiro, quando estamos longe de quem amamos, também não nos sentimos sós. Nessas alturas, acompanha-nos o amor que temos, o sonho de o termos para a eternidade. Quem ama de verdade, nunca está sozinho, ainda que os nossos olhos não vejam isso.

Se não percebemos, é sinal puro, é amor. A vida dura enquanto vivemos, o amor não. O amor não é eterno, é antes um sonho de sempre e para sempre, deixa de o ser eterno quando não é mais do que um sonho, mas mesmo assim continua a ser amor. Só um amor pode valer uma vida. Mil e um espertos concebem a sua vida negando o que disse, vivendo a vida e desfrutando dela em golpes felinos de prazer, mas nunca mais do que isso, nunca amando sem segundas intenções, sejam elas de companhia, de prazer ou de necessidade. E se assim é, não é amor.

E o curioso é que para ser feliz já não se pode pensar assim. E ao fim ao cabo, todos temos os nossos amores, e dependemos todos do mesmo para sermos felizes. Um estado de equilíbrio, cada vez mais.

Nuno.

3 comentários:

Pino disse...

Quando quisermos amar alguém não para sermos felizes, mas porque queremos fazer a outra pessoa feliz... Aí, acho que vamos saber o que é Amor.
Não sou um romântico, como tu, Bicho... Mas percebo-te :)

Joana disse...

Quem te ouvir falar até parece que estás apaixonado torrinhas xP

A GRANDIOSIDADE do Amor simplesmente não se consegue descrever. Mas tu conseguiste andar lá bem pertinho.
E enquanto houver pessoas como tu a descrevê-lo desta maneira, não, o Amor não morreu.

Kiki disse...

Texto super bem escrito, dá que pensar ^^